PG vira referência do avanço de Lula no Paraná e lidera crescimento entre as maiores cidades
Apesar do favoritismo histórico do eleitorado conservador na cidade e da união de quase a totalidade das oligarquias políticas locais em torno de Flávio Bolsonaro (PL), Lula (PT) saltou de 28,30% para 36,04% no segundo turno.
Na votação do segundo turno presidencial no Paraná, Ponta Grossa se destacou como o caso eleitoral mais emblemático do estado. Junto das cinco maiores cidades paranaenses (Curitiba, Londrina, Maringá e Cascavel), Ponta Grossa foi o município em que Luiz Inácio Lula da Silva registrou o maior crescimento em pontos percentuais, saltando de 28,30% dos votos válidos no primeiro turno para 36,04% no segundo turno — um avanço expressivo de +7,74pp.
No ranking ampliado dos 10 maiores municípios do Paraná, Ponta Grossa ficou em segundo lugar geral em ganho de pontos percentuais (atrás apenas de Colombo, na Região Metropolitana de Curitiba, com +7,79 pp). A cidade dos Campos Gerais garantiu também a segunda colocação em crescimento proporcional de votos válidos: a votação de Lula disparou +31,69%, subindo de 56.136 votos no primeiro turno para 73.923 votos na disputa final.
Teses da virada: O apoio institucional de Flávio x Estratégia de rua e diálogo de Lula
O desempenho de Lula em Ponta Grossa se torna ainda mais significativo ao se analisar a correlação de forças e o alinhamento das elites políticas e empresariais da cidade, historicamente refratárias ao campo progressista.
A quase totalidade dos políticos com mandato, antigos prefeitos e grandes lideranças empresariais de Ponta Grossa se engajou diretamente na campanha de Flávio Bolsonaro no segundo turno:
Poder Executivo e Legislativo local: A prefeita reeleita Elizabeth Schmidt (PL), o presidente da Câmara Municipal, Júlio Kuller (PL), o vereador e deputado estadual eleito Ricardo Zampieri (PL) e a ampla maioria dos vereadores do município.
Lideranças estaduais de peso: O deputado federal e ex-secretário de Infraestrutura e Logística do Paraná Sandro Alex (que perdeu a disputa ao governo do Estado contra Sérgio Moro (PL), mas declarou apoio a Flávio); o deputado estadual e ex-prefeito Marcelo Rangel; e o empresário e ex-deputado Márcio Pauliki.
Capital político popular: A família Canto — uma das maiores forças de apelo popular da cidade —, representada pela deputada estadual reeleita Mabel Canto e pelo ex-prefeito e suplente de deputado federal Jocelito Canto, que declararam voto para o candidato do PL.

Aliel Machado, deputado federal reeleito pelo PV, foi fundamental no diálogo moderado com centro e centro-direita - Foto: Divulgação/CMPG
A articulação de centro e a campanha de base que furaram a bolha
A expansão da candidatura petista em um ambiente institucional desfavorável se sustentou sobre dois pilares principais:
Ponte com o centro e redução da rejeição: A principal articulação político-institucional de apoio a Lula foi conduzida pelo deputado federal Aliel Machado (PV), membro da Federação Brasil da Esperança (PT-PV-PCdoB). Aliel — que ampliou o próprio eleitorado em +25% em relação a 2022, alcançando 118 mil votos na reeleição — aplicou a estratégia de diálogo com setores moderados, empresariais, de centro e centro-direita. A tese de desconstruir a rejeição ao campo progressista se provou eficaz em furar a bolha conservadora, reforçada por grande alcance nas redes sociais (com vídeos de apoio ultrapassando 500 mil visualizações).
Estratégia "moderada" eficiente: Aliel chegou a ser cobrado para expor de forma mais enfática o apoio, mas a estratégia moderada e de diálogo se mostrou eficaz, ao que já havia sido fundamental para ampliação da própria votação a deputado, conquistando votos em cidades com prefeitos do PL, principal partido de oposição à esquerda.
Mobilização "pé na rua" e articulação partidária: Na coordenação da campanha de Lula em Ponta Grossa e nos municípios vizinhos, o vereador Guilherme Mazer (PT) liderou um trabalho intensivo de convencimento porta a porta. Mazer organizou caminhadas, panfletagens e atos de rua articulados com lideranças comunitárias de bairros, professores e o movimento estudantil. O trabalho foi reconhecido nacionalmente por eleitores após a vitória de Lula. Uma foto dele em frente a uma casa de bairro conversando com eleitores bateu 250 mil visualizações no X.
Apoio no Legislativo municipal: Na Câmara de Ponta Grossa, a candidatura de Lula contou ainda com o respaldo dos vereadores com mandato Dr. Erick (PV) e Professor Careca (PV), que usaram a tribuna para defender a convergência democrática.

Mazer coordenou a campanha de Lula em Ponta Grossa e foi decisivo em conversas nos bairros com o eleitor - Foto: Arquivo/CMPG
Os desafios permanentes da esquerda no interior
Apesar da aceleração do crescimento de Lula, a radiografia eleitoral de Ponta Grossa reafirma os desafios estruturais da esquerda no interior do estado:
Paredão eleitoral conservador: Flávio Bolsonaro venceu a disputa no município com 63,96% dos votos válidos (131.174 votos), demonstrando a resiliência do voto de direita na região.
Dependência de alianças amplas: O avanço demonstrado por Lula evidencia que o teto da esquerda no interior paranaense só é superado mediante alianças com forças pragmáticas de centro capazes de atenuar resistências ideológicas históricas.
O panorama estadual: Londrina lidera em ritmo e RMC acelera
Além do destaque de Ponta Grossa, o mapeamento das maiores cidades do Paraná indica que a migração dos votos de terceira via no segundo turno irrigou predominantemente a candidatura do PT.
Londrina (Norte do Estado): Foi a cidade de maior crescimento proporcional absoluto do eleitorado de Lula no Paraná. A votação subiu de 72.432 votos (24,20%) para 96.869 votos (30,83%) — uma expansão de +33,74% em número de votos.
Região Metropolitana de Curitiba (RMC): Registrou taxas expressivas de crescimento da candidatura petista em grandes polos urbanos:
Colombo: Liderou o ganho em pontos percentuais no estado (+7,79 pp, subindo de 32,29% para 40,08%) e cresceu +30,03% em votos (51.665 votos).
Fazenda Rio Grande: Aumento de +30,22% em votos e salto de +7,66 pp (de 31,89% para 39,55%).
São José dos Pinhais: Expansão de +30,16% em votos e ganho de +7,15 pp (de 28,20% para 35,35%).
Curitiba: Na capital, Lula cresceu +28,00%, alcançando 425.092 votos (37,71% dos válidos).
Flávio Bolsonaro: Vitoria confirmada, mas crescimento próximo da estagnação
Embora Flávio Bolsonaro (PL) tenha mantido a liderança no segundo turno em todas as 10 maiores cidades analisadas, a capacidade de atração de novos eleitores mostrou sinais de saturação em comparação ao ritmo do adversário.
Enquanto a votação de Lula cresceu acima de 25% na maioria dos centros urbanos, o avanço de Flávio Bolsonaro situou-se em patamares mais tímidos, variando entre +6,34% (Foz do Iguaçu) e +11,69% (Curitiba). A média ponderada de crescimento do candidato do PL nas 10 maiores cidades ficou em +10,46%, indicando que seu eleitorado já estava fortemente mobilizado desde a primeira etapa da eleição.
Provável migração de votos no segundo turno
Ao somar os resultados dos 10 maiores municípios do Paraná — que representam mais de 2,7 milhões de eleitores no segundo turno —, o balanço agregado revela como a aceleração do PT alterou a proporção da disputa direta:
Votação Agregada de Lula: Cresceu de 772.979 votos no 1º turno para 991.997 votos no 2º turno — uma alta de +28,33% (+219.018 novos votos).
Votação Agregada de Flávio Bolsonaro: Passou de 1.578.828 votos no 1º turno para 1.743.970 votos no 2º turno — uma alta de +10,46% (+165.142 novos votos).
Alteração na divisão do eleitorado participante: Considerando exclusivamente os eleitores que escolheram um dos dois finalistas tanto no primeiro quanto no segundo turno, a participação de Lula na soma direta dos 10 municípios subiu de 32,87% no 1º turno para 36,26% no 2º turno — um ganho de +3,39 pontos percentuais sobre o bolo de votos polarizado.
Este dado leva em conta a somatória apenas dos votos dados a Lula e Flávio nas 10 principais cidades do Paraná. No primeiro turno, os dois conquistaram juntos 2.351.807 votos. Destes, 32,87% escolheram Lula e 63,74% foram para Flávio. Já no segundo turno, a margem reduziu, indicando inclusive uma provável migração de votos, e não só a conquista do eleitorado que se absteve ou votou branco e nulo no primeiro turno.
Na disputa final, Lula e Flávio somaram 2.735.967 votos nos 10 municípios mais populosos do Paraná, sendo que destes 36,26% escolheram Lula e 63,74% Flávio, um encurtamento da distância em pontos percentuais. No cenário geral do Estado, Lula também subiu na proporção dos votos polarizados. No primeiro turno, Lula e Flávio tiveram 6.000.032 de votos, sendo 34,24% para Lula e 65,76% para Flávio. No segundo turno, juntos acumularam 6.857.948 votos, e a divisão percentual ficou em 37,42% para Lula e 62,58% para Flávio.