CPI da Terceirizações: Depoimentos apontam falta de carne, qualidade dos alimentos e equipes reduzidas
Depoentes da CPI das Terceirizações relataram problemas na qualidade dos alimentos, falta de merendeiras, falhas no abastecimento e demora na reposição de produtos da alimentação escolar em Ponta Grossa.
Problemas na qualidade dos alimentos, falta de profissionais nas cozinhas e demora na reposição de produtos foram relatados durante uma nova rodada de depoimentos da CPI das Terceirizações, na Câmara Municipal de Ponta Grossa. As declarações foram feitas pela presidente do Conselho de Alimentação Escolar (CAE), Patrícia Malkut, e pelos nutricionistas da Secretaria Municipal de Educação Sonia Cesca e Vagner Antunes, na quinta-feira (29).
Qualidade das carnes é questionada
Durante a oitiva, Patrícia Malkut afirmou que o Conselho de Alimentação Escolar realizou visitas às unidades de ensino, elaborou relatórios e encaminhou apontamentos sobre irregularidades às nutricionistas e às empresas responsáveis.
Segundo ela, os problemas envolvem a qualidade dos alimentos, falhas nas entregas e falta de funcionários. “É visível a baixa qualidade dos alimentos fornecidos pelas duas empresas. Além disso, falta funcionário para executar os trabalhos e, quando alguém falta, não há reposição”, relatou.
Entre as situações apresentadas, Patrícia mencionou carnes com excesso de nervos e gordura, odor considerado inadequado e fragmentos que aparentavam ser de plástico nos alimentos recebidos pelas escolas.
A nutricionista Sonia Cesca, que também atua na fiscalização dos contratos pela Secretaria Municipal de Educação, confirmou que a qualidade das carnes é uma das preocupações.
Segundo ela, os contratos estabelecem especificações para os produtos, incluindo carne bovina magra, com até 3% de gordura. “Na maioria das vezes, a carne vem identificada como patinho, mas parece uma pasta. Já encontramos nervos e pedaços de plástico”, afirmou.
Sonia também relatou que os problemas continuaram mesmo após mudanças de fornecedores. Segundo ela, houve solicitação para suspender o fornecimento de produtos considerados inadequados.
Escolas relatam falta de carne e demora na reposição
Patrícia apresentou exemplos de dificuldades no abastecimento. Na escola onde trabalha, que atende aproximadamente 190 pessoas, houve situações em que a unidade recebeu apenas quatro quilos de carne, embora fossem necessários 14 quilos para atender à demanda.
A presidente do CAE também relatou episódios de falta do produto em dias consecutivos e entregas realizadas pouco antes do horário do almoço.
Em outro caso, segundo Patrícia, um lote de 49 quilos de carne foi recebido após questionamentos sobre a qualidade. Posteriormente, uma nutricionista da Secretaria de Educação orientou que o produto não fosse utilizado e fosse devolvido. “Demoraram duas semanas para retirar a carne. Quando recolheram, não fizeram a substituição naquele momento. Durante esse período, precisei utilizar parte da carne que ainda havia no estoque”, relatou.
O nutricionista Vagner Antunes também afirmou que a carne é o item que mais recebe notificações de irregularidades. Segundo ele, foram feitas mais de nove solicitações para troca de fornecedor.
Divergências entre produtos contratados e entregues
Outro ponto apresentado durante a CPI envolve diferenças entre os produtos previstos nos contratos, as marcas indicadas nas notas fiscais e os alimentos efetivamente entregues às escolas.
Sonia Cesca citou como exemplo o fornecimento de requeijão. Segundo ela, uma marca havia sido homologada, mas as unidades recebiam produtos de diferentes fabricantes. “Na nota constava uma marca melhor, mas, na entrega, recebemos uma marca inferior. O requeijão também foi homologado com uma marca, mas eles entregam duas ou três marcas diferentes”, relatou.
A nutricionista também apontou dificuldades para conseguir a substituição de produtos recusados pelas merendeiras e afirmou que a falta de respostas das empresas compromete o trabalho de fiscalização.
Falta de profissionais sobrecarrega cozinhas
A disponibilidade de funcionários também foi questionada pelos depoentes. Segundo Sonia, o contrato prevê a disponibilização de 280 merendeiras, mas esse quantitativo não estaria sendo cumprido.
A falta de profissionais volantes, responsáveis por substituir funcionários ausentes ou reforçar equipes conforme a necessidade das unidades, também foi apontada como um problema. “Não existem volantes suficientes para atender a todas as escolas. Por isso, precisamos encaminhar as profissionais para os locais em que a situação é mais urgente”, explicou.
Patrícia afirmou que chegou a trabalhar durante três meses com apenas uma auxiliar concursada. Segundo ela, a terceirização não reduziu as demandas das equipes, que também precisam acompanhar a qualidade dos alimentos e orientar as profissionais contratadas.
Secretaria registra 37 notificações
Durante o depoimento, Sonia informou que foram registradas 37 notificações relacionadas a problemas na prestação dos serviços. Desse total, cinco seriam referentes a irregularidades envolvendo carnes.
As demais ocorrências mencionadas incluem alimentos vencidos, transporte inadequado e falta de mão de obra.
A nutricionista afirmou que os problemas se tornaram frequentes e dificultam o cumprimento dos cardápios elaborados pela equipe técnica da Secretaria. “Quando o problema é pontual, você substitui o produto. Mas agora todos os dias falta alguma coisa. O cardápio nunca está certo”, declarou.
Falhas podem afetar refeições dos estudantes
Segundo Sonia, a falta de produtos obriga as merendeiras a adaptar as refeições previstas nos cardápios. Em determinadas situações, isso pode resultar na redução das porções servidas às crianças. “Quando falta algum produto, as merendeiras precisam diminuir as porções para conseguir atender aos alunos. Isso prejudica a alimentação das crianças e pode comprometer o estado nutricional delas”, afirmou.
Depoente relata problemas no transporte e em equipamentos
Patrícia também mencionou problemas no transporte de carnes e laticínios. Segundo ela, foram observadas entregas em veículos considerados inadequados, incluindo caminhões utilizados para mudanças.
Outro ponto apresentado foi a demora na manutenção de equipamentos das cozinhas escolares. A presidente do CAE relatou dois episódios de vazamento de gás que, segundo ela, foram resolvidos cinco dias após a comunicação à direção e à nutricionista da empresa responsável.
Em uma das situações, houve fogo nos registros do fogão, prejudicando o preparo do café da manhã. Patrícia afirmou que recebeu orientação para ligar o equipamento mesmo diante do vazamento relatado.
Presidente do CAE defende retorno à gestão direta
Ao avaliar os problemas apresentados, Patrícia Malkut defendeu que a alimentação escolar volte a ser administrada diretamente pelo município.
Segundo ela, antes da terceirização havia maior autonomia para controlar a qualidade dos alimentos e solicitar a substituição de produtos inadequados. “Para melhorar, precisa voltar à autogestão. Antes, a estrutura funcionava, a alimentação era elogiada e nunca faltava carne como está acontecendo agora”, afirmou.
Os depoimentos passam a integrar os elementos reunidos pela CPI das Terceirizações, que apura as condições de fornecimento da alimentação escolar, a execução dos contratos e as responsabilidades relacionadas aos problemas relatados.