Estudo aponta fatores de risco para deslizamentos em PG
Pesquisa da UEPG analisa a relação entre características geológicas, chuvas intensas e riscos de deslizamentos, além de apontar mudanças nas temperaturas da superfície urbana.
As características geológicas de uma região podem influenciar a forma como o solo reage durante períodos de chuva intensa. Em Ponta Grossa, um estudo da Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG) analisou a bacia do rio Ronda e identificou fatores que podem favorecer movimentos gravitacionais de massa.
Publicado em 2022 por Paula Mariele Meneguzzo e Isonel Sandino Meneguzzo, o estudo analisou os aspectos geológicos da bacia do rio Ronda. A área possui 35,76 quilômetros quadrados, dos quais 24,03 quilômetros quadrados estão dentro do perímetro urbano.
A região está localizada sobre uma estrutura geológica conhecida como Gráben de Ponta Grossa, que se estende por diferentes áreas do município. De acordo com os pesquisadores, os materiais geológicos e as características litoestruturais e geomorfológicas precisam ser considerados em estudos voltados à redução de riscos relacionados a movimentos de massa, enchentes e inundações.
Segundo o geógrafo e professor da UEPG Isonel Meneguzzo, estruturas geológicas como falhas e fraturas nas rochas podem funcionar como zonas de fraqueza e facilitar a passagem da água pelo terreno. “Quando temos chuvas intensas, o solo tende a ficar saturado, cheio d'água. Num terreno com alta declividade, a chance de ocorrer deslizamentos aumenta substancialmente, tornando essas áreas instáveis”, explica.
Dessa forma, a ocorrência de um deslizamento não está associada a um único fator. As características naturais do território, a ocupação urbana e a intensidade dos eventos meteorológicos podem atuar conjuntamente e aumentar a vulnerabilidade de determinadas áreas.
Para Meneguzzo, as mudanças climáticas podem contribuir para a intensificação de eventos extremos e, consequentemente, aumentar a possibilidade de ocorrência de processos que já representam riscos em determinadas regiões. Isso não significa, porém, que um temporal ou deslizamento específico possa ser atribuído exclusivamente às mudanças climáticas. Cada ocorrência depende da combinação de condições atmosféricas, geográficas e urbanas.
Além das características locais, fenômenos climáticos de maior escala podem interferir nas condições observadas no Sul do Brasil. Entre eles está o El Niño, marcado pelo aquecimento anormal das águas superficiais do Oceano Pacífico Equatorial.
O fenômeno altera padrões de circulação atmosférica e pode influenciar a distribuição de chuvas e temperaturas em diferentes regiões. No Paraná, pode contribuir para mudanças no comportamento habitual desses elementos.
A presença do El Niño, entretanto, não permite estabelecer uma relação direta com um determinado temporal ou deslizamento. Para analisar cada ocorrência, é necessário considerar as condições atmosféricas e as características específicas do local atingido.
Os efeitos das mudanças climáticas não estão relacionados apenas às chuvas. Pesquisas desenvolvidas pela UEPG também identificaram alterações nas condições térmicas do município. Um estudo baseado em imagens de satélite entre 1992 e 2022 apontou aumento de até 12 °C na temperatura da superfície de determinadas áreas. O levantamento integra pesquisas do NAPI Emergência Climática. O dado não significa que a temperatura do ar tenha aumentado 12 °C em toda a cidade. A pesquisa analisa a temperatura da superfície terrestre, que varia de acordo com a cobertura do solo e o nível de urbanização.
Áreas com maior concentração de construções, asfalto e concreto podem apresentar características térmicas diferentes de regiões com maior cobertura vegetal. A diferença está relacionada à maneira como o ambiente urbano absorve e libera calor. O fenômeno também mostra que o planejamento urbano está diretamente relacionado à discussão sobre adaptação às mudanças climáticas.
Chuvas intensas, inundações, deslizamentos e períodos de calor podem provocar consequências que vão além dos danos físicos. Uma inundação pode interromper o trânsito e o transporte público, atingir residências e estabelecimentos comerciais e provocar prejuízos financeiros. Já um deslizamento pode levar à interdição de imóveis e obrigar famílias a deixarem suas casas.
Períodos de calor intenso também podem afetar a população e aumentar a demanda por determinados serviços urbanos. Por isso, o risco climático também possui uma dimensão social. Pessoas que vivem em áreas mais vulneráveis podem estar mais expostas aos impactos dos eventos extremos, especialmente quando a infraestrutura disponível não acompanha as características do território.
Em Ponta Grossa, regiões próximas a arroios, encostas e fundos de vale podem apresentar maior vulnerabilidade durante períodos de chuva intensa. Entre os riscos estão os movimentos de massa em áreas de maior declividade, além de enchentes e inundações em fundos de vale.
A prevenção é uma das principais estratégias para reduzir os impactos dos eventos extremos. A identificação de áreas vulneráveis, o monitoramento das condições meteorológicas e o acompanhamento dos alertas dos órgãos competentes fazem parte desse processo.
Durante períodos de chuva intensa, a Defesa Civil orienta que moradores deixem suas residências quando houver risco e evitem permanecer próximos a encostas que apresentem sinais de instabilidade ou em locais sujeitos a alagamentos.
Para o município, o desafio envolve combinar ações de prevenção e resposta a emergências com planejamento urbano e medidas de adaptação. A redução dos riscos depende da compreensão das características do território e da preparação para eventos extremos que podem afetar de maneira diferente cada região da cidade.