Clinicão protocolou requisição para troca de depoente um dia antes de oitava; entenda divergências
Documento obtido pelo Fornazari.com mostra que a Clinicão protocolou pedido para substituir seu representante na CPI do CRAR um dia antes da oitiva. O despacho interno ocorreu somente após a sessão, enquanto a empresa e vereadores apresentam versões diferentes sobre o episódio.
O Fornazari.com teve acesso ao documento protocolado pela Clinicão na Câmara Municipal de Ponta Grossa para comunicar a substituição do representante convocado para depor na Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) que investiga o contrato do Centro de Referência para Animais em Risco (CRAR).
O ofício foi registrado um dia antes da oitiva, mas o despacho interno para análise jurídica ocorreu somente no dia seguinte à sessão. A empresa sustenta que teve seu direito de defesa prejudicado, enquanto integrantes da CPI afirmam que a convocação era direcionada ao representante legal da empresa.
A tentativa da Clinicão de alterar quem representaria a empresa perante a Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) do CRAR acrescentou um novo capítulo à investigação conduzida pela Câmara Municipal de Ponta Grossa.
Documentos obtidos pelo Fornazari.com mostram que a empresa protocolou um ofício comunicando a substituição do representante convocado um dia antes da oitiva. A cronologia do trâmite, porém, indica que o pedido somente recebeu encaminhamento interno após a realização da sessão.
Data do protocolo
O documento foi registrado no sistema eletrônico da Câmara sob o protocolo 3568/2026, referente à solicitação 377, às 11h29 da segunda-feira (29).
Na mesma data, em razão da partida da Seleção Brasileira pela Copa do Mundo, a Câmara realizou sessão apenas no período da manhã, sem expediente legislativo durante a tarde.
No ofício, a Clinicão informou que o sócio Ordy Barbosa de Oliveira, de 80 anos, convocado para prestar esclarecimentos, seria representado pelo procurador e gestor do contrato, Matheus Wedicny Fraitag. A justificativa apresentada foi de que Ordy estaria afastado da gestão operacional da empresa.
A oitiva ocorreu normalmente na tarde de terça-feira (30). O representante legal convocado não compareceu. Participaram da sessão o responsável técnico pelo CRAR, médico-veterinário Vitor Hugo Colino, e o procurador indicado pela empresa, acompanhados por advogado.
O Fornazari.com apurou que o documento protocolado na segunda-feira somente recebeu despacho para o Departamento Jurídico da Câmara às 11h55 da quarta-feira (1º), um dia após a realização da oitiva.
Procedimento costuma ser diferente
Durante a apuração, o Fornazari.com também obteve a informação, sob compromisso de sigilo da fonte, de que, embora o protocolo pelo sistema da Câmara seja um procedimento regular, pedidos relacionados diretamente ao andamento de Comissões Parlamentares de Inquérito normalmente são encaminhados diretamente à presidência da comissão, utilizando o e-mail institucional do vereador responsável.
Segundo a apuração, esse procedimento foi adotado em outras investigações legislativas recentes, como a CPI da Sanepar e a Comissão Especial de Investigação (CEI) do Lixo, permitindo que requerimentos fossem analisados com maior agilidade pelos membros das comissões.
No caso da CPI do CRAR, presidida pela vereadora Teka dos Animais (União Brasil), isso não ocorreu.
Nota da empresa
Após a oitiva, a Clinicão divulgou nota afirmando que não teve assegurado o pleno direito de apresentar sua versão dos fatos.
A empresa sustenta que comunicou previamente a substituição do representante e afirma que o procurador Matheus Wedicny Fraitag foi interrompido durante sua manifestação, sem conseguir concluir os esclarecimentos administrativos e contratuais.
Na nota, a Clinicão também afirma que o contrato permanece vigente, que os serviços seguem sendo prestados normalmente e que toda a documentação referente à execução contratual já foi apresentada aos órgãos competentes.
Em manifestação após a sessão, integrantes da CPI defenderam que a convocação era direcionada ao representante legal da empresa e que a ausência do sócio-administrador prejudicou o esclarecimento dos fatos.
Além disso, apesar de existir o protocolo, ele precisa ser aceito após análise pelos vereadores. Sem esse acinte, a empresa não pode substituir o depoente e exigir que ele tenha espaço na CPI naquela data.
Entrada foi permitida, mas não é o procedimento
O acesso de pessoas ao Plenário da Câmara Municipal que não estavam convocadas para prestar depoimento foi autorizada, o que permitiu que Matheus Fraitag sentasse em uma cadeira de depoente, mesmo não tendo sido convocado, e tentado falar, para na sequência ter o microfone cortado.
Como em todas as CPIs, o espaço deve ser reservado para apenas quem foi convocado para prestar depoimento. Com isso, Matheus não deveria ter tido o acesso liberado pela CPI, mesmo que a Clinicão tivesse protocolado um pedido para que ele substituísse Ordy no depoimento. A requisição não transforma o pedido em fato, o qual deve ser aprovado pelos vereadores da comissão.
Respondeu a Prefeitura, mas depois de oitiva da Controladoria
Outro ponto questionado pelo Fornazari.com a Clinicão foi sobre a falta de resposta ao Poder Público, em especial a Controladoria Municipal, sobre questionamentos a respeito do serviço prestado. A empresa alega que atualmente não possui mais pendências de respostas aos questionamentos encaminhados pelo Município.
Entretanto, durante depoimento prestado anteriormente à própria CPI há menos de um mês, representantes da Controladoria-Geral do Município relataram aos vereadores que a empresa deixou de responder solicitações de informações encaminhadas pelo órgão de fiscalização durante a execução do contrato.
Ou seja, a empresa respondeu aos questionamentos, mas após a oitiva da Controladoria à CPI que revelou à falta de informações e também após o pedido da própria Clinicão para participar da CPI. A empresa questionar não ser ouvid, mas ela mesma protelou respostas ao governo municipal.