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"Impacto invisível": Bets retiraram R$ 62,5 bilhões das famílias e prejudicaram economia no Brasil

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As apostas on-line movimentaram centenas de bilhões de reais no Brasil e, segundo estudos recentes, tiveram impacto direto no orçamento das famílias e na atividade econômica em 2025. Dados do Comitê Nacional de Secretários de Fazenda (Comsefaz) apontam perdas líquidas de R$ 62,5 bilhões para as famílias, enquanto pesquisa da USP estima que as apostas retiraram entre R$ 120 bilhões e R$ 141 bilhões da atividade econômica no ano passado.

O QUE VOCÊ VAI LER

  • R$ 62,5 bilhões foram perdidos pelas famílias brasileiras para as bets em 2025.

  • As plataformas movimentaram quase R$ 351 bilhões em transações via Pix no período analisado.

  • Estudo da USP estima redução de até R$ 141 bilhões na atividade econômica em 2025.

  • Os custos sociais e econômicos associados às apostas foram estimados em R$ 38,8 bilhões por ano.

O tamanho do mercado de apostas on-line no Brasil pode ser medido não apenas pelo dinheiro movimentado pelas plataformas, mas também pelo impacto sobre o orçamento das famílias e sobre o restante da economia.

Segundo dados do Comsefaz divulgados em agosto de 2026, as famílias brasileiras perderam R$ 62,5 bilhões para as bets em 2025. O valor corresponde à diferença entre o dinheiro enviado às plataformas e o montante devolvido aos apostadores em forma de prêmios.

No período considerado pelo levantamento, entre outubro de 2024 e março de 2026, as empresas de apostas movimentaram quase R$ 351 bilhões em transações por Pix. As perdas líquidas das famílias equivalem a 0,68% da Renda Nacional Disponível Bruta das famílias.

Dinheiro que deixa de circular

Um estudo do Centro de Pesquisa em Macroeconomia das Desigualdades (Made), da Faculdade de Economia, Administração, Contabilidade e Atuária da Universidade de São Paulo (FEA/USP), calculou outro efeito das apostas: a redução do consumo e da atividade econômica.

A pesquisa estima que as bets retiraram entre R$ 120 bilhões e R$ 141 bilhões da atividade econômica brasileira em 2025. O intervalo corresponde a aproximadamente 0,9% a 1,1% do Produto Interno Bruto (PIB).

De acordo com os pesquisadores, a redução da atividade econômica teria provocado uma perda de arrecadação estimada entre R$ 31,1 bilhões e R$ 54,8 bilhões.

Mesmo considerando aproximadamente R$ 9 bilhões arrecadados diretamente com as plataformas, o estudo estima que o efeito líquido sobre as contas públicas permaneceu negativo, entre R$ 22 bilhões e R$ 46 bilhões.

A pesquisa aponta que o dinheiro direcionado às apostas deixa de ser utilizado em outras formas de consumo. Com isso, o impacto não fica restrito ao apostador ou à empresa de apostas, mas pode atingir a circulação de recursos na economia.

Endividamento das famílias

O levantamento da USP também analisou a relação entre as apostas e o endividamento.

Os pesquisadores consideraram uma hipótese extrema em que os R$ 62,5 bilhões de perdas líquidas das famílias tivessem sido financiados por novo crédito. Nesse cenário, o valor corresponderia a cerca de 14% do aumento do endividamento das famílias em 2025.

O estudo ressalta, porém, que esse cálculo é uma hipótese utilizada para dimensionar o possível impacto e não significa que todo o valor perdido nas apostas tenha sido financiado por crédito.

Custo social chega a R$ 38,8 bilhões

Outro estudo, divulgado em 2025, estimou em R$ 38,8 bilhões por ano as perdas econômicas e sociais associadas às apostas on-line e aos jogos de azar no Brasil. O levantamento considera fatores relacionados à saúde, desemprego, afastamento do trabalho, perda de moradia e encarceramento.

Entre os valores estimados estão R$ 17 bilhões relacionados a mortes adicionais por suicídio, R$ 10,4 bilhões referentes à perda de qualidade de vida associada à depressão e R$ 3 bilhões em tratamentos médicos para depressão.

O estudo também estimou R$ 2,1 bilhões relacionados ao seguro-desemprego, R$ 4,7 bilhões associados ao encarceramento por atividade criminal e R$ 1,3 bilhão relacionado à perda de moradia.

Do total de R$ 38,8 bilhões, 78,8%, ou R$ 30,6 bilhões, foram associados a custos ligados à saúde.

Arrecadação não acompanha os custos estimados

As apostas também passaram a representar uma fonte de arrecadação para o governo após a regulamentação do setor.

Segundo o estudo sobre os impactos econômicos e sociais das apostas, a atividade passou a pagar um volume maior de impostos a partir de 2025. Até setembro daquele ano, a arrecadação havia chegado a R$ 6,8 bilhões e, no mês seguinte, o acumulado se aproximava de R$ 8 bilhões.

O levantamento comparou essa arrecadação com o custo anual estimado de R$ 38,8 bilhões e apontou uma diferença entre os recursos arrecadados diretamente e os impactos econômicos e sociais calculados pelos pesquisadores.

As bets são tributadas em 12% sobre a receita bruta, enquanto os apostadores pagam 15% de Imposto de Renda sobre os prêmios recebidos, conforme os dados apresentados no estudo.

Efeito sobre o consumo

A pesquisa da USP também aponta que as perdas das famílias podem ter consequências para a demanda por produtos e serviços.

Ao retirar recursos da renda disponível das famílias, principalmente quando o dinheiro seria destinado ao consumo, as apostas podem reduzir a circulação desses valores em outros setores da economia.

Os pesquisadores estimaram que a redução da atividade econômica representou entre 40% e 50% de todo o crescimento da economia brasileira em 2025.

O estudo também calculou que o efeito negativo sobre as contas públicas poderia representar entre 10% e 20% de todo o orçamento destinado à saúde pública no estado de São Paulo em 2025.

Mercado e geração de empregos

O estudo sobre os impactos econômicos e sociais também analisou a capacidade das bets de gerar empregos e renda.

Com base em dados oficiais do Ministério do Trabalho, os pesquisadores estimaram que o setor tinha 1.144 empregos formais. O levantamento também aponta elevada informalidade entre trabalhadores ligados à atividade.

Segundo a pesquisa, 84% dos trabalhadores do setor não contribuíram para a Previdência em 2024, enquanto a média da economia brasileira era de 36%.

A dimensão do mercado

O tamanho do mercado também aparece nos valores movimentados pelas plataformas. Dados divulgados pelo Banco Central e citados no estudo indicaram que os brasileiros destinaram aproximadamente R$ 240 bilhões às bets em 2024.

O levantamento mostra, portanto, que o debate econômico sobre as apostas envolve mais do que a arrecadação gerada pelas empresas.

De um lado, existe a movimentação financeira das plataformas e a arrecadação tributária. De outro, os estudos analisam o dinheiro retirado do orçamento das famílias, a redução do consumo, o possível aumento do endividamento e os custos sociais relacionados à saúde e ao mercado de trabalho.

Os números ajudam a dimensionar o impacto de um mercado que passou a fazer parte da economia brasileira nos últimos anos e que agora enfrenta uma mudança no modelo de funcionamento no país.

Com informações de Marcelo Brandão e imagem de Antônio Cruz da Agência Brasil